8ª Carta


O dia esteve com cores cinzentas, o sol mal conseguiu romper por entre as nuvens e a chuva voltou a cair. Esteve um dia propício à explanação dos pensamentos e ideias. Não sei o motivo que me sinto com uma atmosfera envolvente para expelir o que de mais profundo tenho dentro de mim. As músicas acompanham-me, as palavras começam a fluir para esta folha em branco, o meu coração bate a um ritmo descansado e em paz, talvez enfeitiçado pelo chamamento das gotas da chuva que vão caindo nos beirais dos telhados, ora calmas, ora com mais força, deslizando por entre o ar, misturando-se com o vento, com os cheiros, com a pele, com a natureza.

Num Mundo tão atribulado são cada vez mais raros os momentos que temos oportunidades para conversarmos connosco, desabafarmos com o nosso Eu, desabafar com Deus. São nestas alturas que encontras respostas ou factores que desconhecemos ter. Por vezes temos a sensação que não nos conhecemos de tão ausentes que nos encontramos de nós mesmos, e é verdade. O Mundo consegue-nos contagiar e afecta quando não conseguimos ser sinceros. Negamos constantemente os nossos sentimentos mais intensos, os nossos pensamentos e os nossos ideais. Existe uma vergonha de assumirmos quem somos perante uma sociedade imperturbável, eu tento afastar-me deste conjunto, tento não ficar à espera de mais um dia chuvoso para que os meus pensamentos destilem na minha cabeça, quase imperceptível, mas com uma pureza e de única verdade. Hoje isso acontece.

Hoje poderei escrever que estou só, não uma solidão com uma ausência de pessoas ou de mim, mas uma solidão que ao ver a chuva cair, faz com que pense em ti. Aliais, penso em ti todos os dias, todas as horas e a todos os momentos. Vejo-te a andar na rua na minha direcção com um sorriso doce, um brilho no olhar e dizeres que sou a tua Princesa, num Mundo onde já não existe fantasia e as Princesas só existem em contos infantis com finais felizes, isso sempre acontece, como sempre acontecerá seres a minha pequena Princesinha. Vejo-te a deitar-te junto a mim na mesma cama que já nos uniu e dizes-me que tens frio, com um olhar terno, enquanto eu acaricio-te o cabelo. Abraço-te com todas as minhas forças sabendo que será a última vez que o faço.

Olho a chuva, mas não já não te vejo, está frio e eu deixei de sentir o teu calor. É estranho mas até sinto falta de quando “ralhavas” comigo, hoje eu sei que era para o meu bem. Melhor que tudo era a tua presença, a tua simples companhia bastava para aquecer a minha alma e inundar o meu espírito de alegria. É tudo tão mais feliz quando pensamos no nosso bem-estar. Agora a chuva cai com mais intensidade, o vidro enche-se com milhares de gotas, não deixando lá fora o Mundo visível, o Mundo lá fora também há muito que não me interessa, eras tu que davas sentido à minha Vida, tu eras o meu Mundo. Ainda consigo sentir o teu cheiro, ainda consigo lembrar os contornos do teu rosto, o teu cabelo quando bailava ao vento e por vezes chego a pensar que tudo não passa de um pesadelo e que amanhã chegas até junto de mim e aninhes no meu colo desejando os meus carinhos, o meu amor. Mas esse amanhã nunca mais chega, nem chegará mais. As horas passam, a chuva continuar a cair, as esperanças vão desvanecendo-se. Se te encontrar não vou saber o que dizer, importará saber? Ficarei sem reacção e contemplarei o teu rosto, eu gostava tanto de ti, embora por vezes não o tenha demonstrado da melhor forma.     

Continuo a escrever-te porque a atmosfera que me envolve vai de encontro ao meu estado de espírito e apenas este papel é capaz de entender, acompanha o correr dos meus pensamentos. Sempre fui muito sensível a escrever, tu sabes, mais ainda quando o motivo da escrita eras tu. Aliais, se hoje escrevo foi pelo motivo de me teres incentivado. Querias que utilizasse o meu dom (como tu dizias) e agora recordo-me quando estávamos sentados na mesa do café com os nossos familiares e a propósito do tema da conversa, disseste em tom bem audível e cheia de certezas que nem mesmo os melhores escritores da história são capazes de superar tudo aquilo que escrevia para ti. Lembras? Eu não esqueci. Por isso contínuo a escreve-te onde quer que estejas, enquanto as minhas forças permitirem, eu irei-te escrever-te. Agora que não estás, mais ainda, só a escrever consigo preencher o vazio que deixaste.

A vida é tão simples dita por palavras! Se eu conseguisse dizer tudo o que vai na minha alma, tudo aquilo que estou a escrever, provavelmente hoje desfrutaríamos juntos este dia chuvoso, estaríamos felizes. Mas eu agora estou só e só vou continuar até este dia chuvoso chegar ao fim. Já não falta muito.

 

Do teu, 

 

Hc Poesias ®

Anúncios

About hcorreia2003

Eu gosto de viver. Já me senti ferozmente, desesperadamente, agudamente infeliz, dilacerado pelo sofrimento, mas através de tudo ainda sei, com absoluta certeza, que estar vivo é sensacional.
Esta entrada foi publicada em poemas de amor. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s